Saúde mental da mãe no Pós-Parto

Saúde mental da mãe no Pós-Parto

Saúde Mental da Mãe no pós-parto – a Depressão pós-parto

 

A saúde mental é tão importante como a saúde física.

 

São inúmeros os desafios com que nos deparamos a partir do momento em que o bebé está cá fora. Este é o período de maior vulnerabilidade para o desenvolvimento de perturbações de humor em todo o ciclo vital da mulher.

 

Quais as alterações que ocorrem e quais as diferenças entre Baby Blues e Depressão Pós- Parto?

Começamos logo com as alterações hormonais que ocorrem no pós-parto imediato e no decorrer do pós-parto que podem levar a condições como o babyblues, que é uma situação emocional transitória, e caracterizada por melancolia da mãe, choro fácil, preocupação excessiva com o bebé, alguma ansiedade e nervosismos e ainda com cansaço e dificuldade de concentração, com a sensação de que não é capaz. Tudo isto faz parte do período pós-parto imediato e é normal acontecer no período em que a mulher regressa a casa. No entanto, se esta condição se prolongar ao longo do tempo e se se verificam estes sintomas e outros como: tristeza constante, sentimentos de culpa, baixa auto-estima, medo de ficar sozinha, cansaço extremo, incapacidade de cuidar do bebé ou de si, e numa situação extrema pensamentos de suicídio ou de fazer mal ao bebé, estamos já perante uma situação de Depressão Pós-Parto. Esta perturbação emocional pode surgir desde o trabalho de parto e até ao fim do primeiro ano de vida da criança, no entanto, a maioria dos casos ocorre a partir da 6ª semana de período pós-natal.

 

Existem outros fatores que podem contribuir para uma depressão pós-parto?

Sim, existem ouros fatores que podem contribuir para o desencadear de uma depressão no pós-parto. Primeiro deixamos de ser filhos e filhas, para passarmos a ser pais e mães. Há aqui uma inversão de papéis que vem na maioria das vezes acompanhada de ansiedade, medos, inseguranças e dúvidas (“serei capaz de cuidar/tratar do meu bebé, “Serei capaz de ser uma boa mãe”, “Será que estou a fazer isto bem?” e etc…).

Depois a maternidade é muito imprevisível. As mães, os pais, o casal, tendem a criar expectativas elevadas, irreais e/ou desajustadas relativamente à realidade do que é ter um bebé/ criança e focarem-se muito nelas. Tanto que estas a dado momento começam a ser um entrave à vivência de uma parentalidade mais tranquila, mais calma e mais feliz e que acarretam algumas consequências mais negativas como a dificuldade de conexão com o nosso bebé e dificuldade na satisfação e resposta às necessidades reais do nosso bebé.

As alterações físicas e da imagem corporal também são fatores de grande stress e ansiedade para a mãe, que quer rapidamente recuperar a forma física e ter o corpo que tinha anteriormente à gravidez, e/ou não se reconhece neste novo corpo ou até mesmo sente a falta do seu bebé na barriga “ele era só meu e agora tenho de o partilhar”.  No entanto, com um recém-nascido sabemos que é muito difícil termos tempo para nós e o próprio corpo necessita de tempo para recuperar.

 

Quais as situações e fatores de risco para uma depressão pós-parto?

Visto serem algumas, passo a enumerar:

– Patologia Obstétrica;

– Malformações do feto;

– Depressão na gravidez;

– Prematuridade;

– Perturbações alimentares e de sono do bebé

– Perturbações regulatórias do bebé (hiper ou hipossensibilidade aos estímulos, dificultando o estabelecimento da relação)

– Ansiedade e Psicose materna;

– Depressão pós- parto anterior ou história anterior de depressão.

– Gravidez na adolescência;

– Isolamento social;

– Ausência de uma rede de apoio.

 

Quais as consequências de uma depressão pós-parto?

Uma depressão pós-parto tem consequências graves para a mãe, o bebé e o casal. Perturbação na criação de vínculo materno com o feto e o bebé, a perturbação na preocupação maternal primária (responder às necessidades básica do bebé), uma disfunção grave na vinculação bebé- mãe, depressão infantil e dificuldade  na comunicação entre o casal e na sua relação afetiva, que  irá refletir no equilíbrio emocional (auto-regulação vs auto- controlo) do bebé e criança.

 

Qual o papel do Fisioterapeuta e de outros profissionais enquanto profissionais de saúde que realizam a preparação e fazem o acompanhamento pré e pós-natal?

 

É muito importante que no acompanhamento pré parto, nas aulas de preparação para o parto,  exista uma abordagem a este tema de forma a consciencializar a mãe e o casal e  para que, no caso de  existência de alguns sinais ou sintomas, a mãe e o casal entrem em alerta e não tenham receio em procurar ajuda perto dos seus profissionais de saúde, assim como, os profissionais de saúde que fazem o acompanhamento da mamã no pós-parto, devem ter a responsabilidade de identificar, alertar e orientar a situação para os profissionais competentes nesta área,  os psicólogos e psiquiatras.

É extremamente necessário trazer tranquilidade, no pré parto às mães no sentido de as informar que é normal terem esses sentimentos e que com o tempo, e se necessário ajuda e acompanhamento no pós-parto, tudo vai correr bem.

Precisamos de dizer às mães e pais (sim eles também podem sofrer de depressão e é necessário também estar atento ao pai) que não precisam de ser as melhores mães e pais do mundo, mas sim os pais que os nossos filhos precisam, com todos os desafios, medos, receios normais e que andam de mãos dadas com a parentalidade. Aceitar também o facto de que a perfeição não existe! (ela existe só nas redes sociais!)

É preciso normalizar a maternidade. Que vão andar desorientadas no dia e nas horas, que a casa vai estar toda desarrumada, a cozinha por arrumar e que não há problema, é o normal!, que não se vão lembrar da última vez que tomaram banho, que vão sentir que não fazem mais nada para além de alimentar  o seu bebé e mudar fraldas. Que as noites deixam de ser noites e passam a ser dia, que os bebés não dormem a noite toda e que a única coisa que vão querer é conseguir dormir mais de 2h seguidas, que há dias em que se sentem cheias de energia e outros que só apetece fugir. É uma lista sem fim. Mas é preciso dizer que é o normal e que está tudo bem.

É preciso, ainda, dizer aos pais que ter um filho é muito exigente, exige tanto de nós, como talvez não haja igual, que tenham paciência, que ouçam os seus bebés e acima de tudo que os respeitem por aquilo que eles são nas diversas fases pelo qual vão passar, e que eles são tudo aquilo que eles precisam para se desenvolverem, crescerem de forma saudável. Que confiem em vocês enquanto mãe e pais e que confiem no vosso bebé.

 

A saúde mental é tão importante como a saúde física.

 

Autor: Raquel Jacinto – Fisioterapeuta

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